Não Deixe a Faculdade Atrapalhar Seus Estudos.
Como garantir uma boa formação em ciências exatas sem depender dos professores — baseado na minha experiência na USP.
Uma semana antes da minha primeira aula na USP, o professor de Cálculo I nos enviou um e-mail avisando que “dependeríamos de sermos autodidatas”. Anexou o PDF do livro Um curso de cálculo, do Guidorizzi, e disse que mandaria listas e provas em datas combinadas.
Essa foi a minha “recepção” no Instituto de Física da USP. Meu primeiro choque de realidade, contrastando com a minha experiência escolar, veio antes mesmo de eu pisar no campus da cidade universitária.

A situação certamente foi agravada em razão da pandemia (que ainda estava em alta quando minha graduação começou em 2021).
De toda forma, hoje conhecendo bem o docente em questão, estou certo de que, em condições normais de temperatura e pressão, ainda impera a necessidade de ser independente dele para conseguir uma formação adequada na disciplina.
No segundo semestre, um professor de física disse em uma aula de oscilações que “por um milagre” são obtidas soluções reais na resolução da equação diferencial de um oscilador harmônico amortecido (cuja técnica envolve transformar a equação em sua versão complexa). Em vez de mostrar, abrindo as contas, como isso surge naturalmente, o docente preferiu usar o argumento “por um milagre” e seguir o jogo.

No terceiro semestre, o professor que lecionou Cálculo III para a minha turma não era nada simpático nem didático, não gostava de responder perguntas e parecia ter como principal objetivo reprovar os alunos ou deixá-los com as notas mais baixas possíveis. De fato, na prova de recuperação, fiquei sabendo que independente da nota que você tirasse a sua média ficava limitada a 5.0 (que é o mínimo para passar). Fui um dos poucos que conseguiu passar por média de primeira sem precisar de recuperação, mas isso porque corri muito por fora.
No quarto semestre, o docente da disciplina de Física Matemática resolveu falar sobre números transcendentais na primeira aula e procedeu nas semanas seguintes com aulas cada vez mais arbitrárias, sem nenhuma sequência lógica ou didática e com correspondência praticamente inexistente com a ementa que a disciplina tem todos os anos (análise de Fourier e equações diferenciais parciais).

Este foi o meu ciclo básico: em todos os semestres eu tinha pelo menos um professor que reforçava a ideia de que eu não poderia depender da faculdade para conseguir uma boa formação — mesmo estudando na ranqueada como a melhor da América Latina, a USP.
Eu cursei o meu ensino médio como bolsista integral em turma preparatória para o ITA. Construí uma boa base. Me preparava também para o processo seletivo de ingresso em universidades americanas — no qual acabei estudando, para algumas provas mais avançadas, uma série de assuntos a nível de graduação.

Apesar de ter dado tudo certo nesse processo e de eu ter sido aceito com bolsa integral na universidade que eu queria na Califórnia, perdi a oportunidade de ir por conta da pandemia (que começou no mesmo ano, 2020, e suspendeu o ano letivo). Então, aproveitei o tempo livre e passei a pandemia “trancado no quarto” estudando pelos livros que sabia que usaria na graduação, antecipando o que pude, além de estudar para o vestibular de ingresso na USP.
Mesmo entrando no bacharelado em física em 2021 com uma base indiscutivelmente privilegiada e acima da média, me vi enfrentando dificuldades como todo mundo e precisei amadurecer em um ambiente e rotina muito diferentes dos que eu tinha na época de escola.
Ficou claro que eu não poderia deixar a faculdade atrapalhar os meus estudos.
Ficou claro que eu precisava aprender a me organizar, a cumprir com prazos recorrentes, a estudar por vários livros em paralelo, a aprimorar a minha dissertação, a melhorar minha intuição.
O ciclo básico do curso me serviu exatamente para endereçar essas questões. O ciclo avançado do curso (últimos dois anos) não foi menos difícil (pelo contrário, já que as disciplinas eram ainda mais complexas), mas com o diferencial de que eu sabia lidar melhor com cada dificuldade e conseguia garantir formação adequada em cada assunto sem depender, necessariamente, dos meus professores.

Logicamente, nem tudo foi ruim. Eu também tive vários docentes bons e alguns poucos docentes extraordinários. A única coisa que quero te dizer é que não dependa deles, mas saiba aproveitar quando forem bons.
Na maior parte do tempo, é você, sua escrivaninha, uma resma de folhas e uma caneta. A vocação menos custosa do mundo: o profissional das exatas.
Victor Lins
Publicado nas Leituras do Acervo Lins, a casa editorial que faz livros para durar.

