Física

Por que não conseguimos estudar?

A Síndrome da Inércia: o verdadeiro sabotador do seu rendimento acadêmico.

Victor Lins

Victor Lins

Bacharel em Física pela USP · Professor há 10 anos

17 de janeiro de 2026 · 4 min de leitura

Uma vez vencida a barreira inicial da inércia, manter-se em fluxo exige muito menos esforço do que iniciar do zero a cada vez.Ilustração · Acervo Lins
Todo estudante tende a permanecer em repouso (sem escrever, sem entregar, sem estudar, sem avançar) até que uma força externa o obrigue a se mover — seja um prazo estourado, uma banca ou um orientador irritado.

À luz da ideia de Sir Isaac Newton (a lei da inércia), esse enunciado representa o que quero dizer por Síndrome da Inércia.

Cunhei o termo porque, em uma década me dedicando diariamente ao estudo, senti que ele melhor descreve o que acontece na rotina de um estudante em amadurecimento — processo pelo qual eu mesmo passei.

Na verdade, esse princípio se aplica não só ao meio acadêmico, mas a essencialmente qualquer situação rotineira em que postergamos deliberadamente o que devemos fazer, isto é, procrastinamos.

Estudante em estado de inércia diante das telas.

Você chega em casa depois da universidade ou do trabalho, cansado e enfadado, só querendo deitar um pouco na sua cama ou no sofá. Pega o celular e consome conteúdos em plataformas que foram criadas e otimizadas para entreter você com o que você mais gosta. Entra em um estado de inércia.

O mais comum é que sair dessa inércia e ir estudar (ou tratar de alguma outra responsabilidade) demande a ação de alguma força externa, como uma prova que está próxima ou um trabalho que está com prazo curto e precisa ser entregue.

Depois que essa força externa é aplicada, milagrosamente parece que tudo flui. A sessão de estudo rende bem, se não houver distrações. Por que isso acontece?

Sessão de estudo em fluxo depois de vencida a inércia.

Aqui eu uso uma analogia com outra ideia física: a de momentum.

Todo estudante que já entrou em movimento (começou a estudar, escrever ou avançar) tende a manter esse estado, a menos que forças externas de distração ou interrupção o façam parar.

Assim como no princípio físico, em que o momentum de um corpo isolado se conserva, uma vez vencida a barreira inicial da inércia, manter-se em fluxo (flow state) exige muito menos esforço do que iniciar do zero a cada vez.

Falando especificamente sobre matemática e física, a barreira inicial costuma ser percebida como alta sempre que encaramos assuntos novos. Se a força externa não for proporcional, a procrastinação sempre vencerá.

Livro aberto denso de símbolos, a barreira inicial de um assunto novo.

No começo, tudo parece estar em grego. Você olha para o livro, enxerga aquele amontoado de letras, símbolos, coisas que você não consegue nem ler direito… Você pensa: nossa, eu já estudei tanta matemática até aqui. Como pode eu não conseguir entender?

A verdade, que todos precisamos aceitar em algum momento, é que estudar assuntos novos sempre vai ser uma tarefa amarga, apesar dos frutos serem doces.

No meio acadêmico, conforme mais você estuda, mais você percebe a quantidade de temas específicos e aprofundados que existem e que você não conhece, muito menos entende.

O mais comum, quando tentamos estudar um assunto novo, é olhar para toda essa abstração e ficarmos paralisados, sem saber por onde começar.

Amadurecer no meio acadêmico é aceitar que esse processo de amargura seguida de doçura vai te acompanhar pelo resto da vida. Você precisa ter estômago para continuar de pé depois que um livro, que não possui punhos, te surrar.

Os ossos do ofício: perseverar diante da dificuldade.

A única forma de aprender e progredir é essa. São os ossos do ofício: abraçar o processo, se permitir errar bastante no início, aprender com os seus erros, estudar por múltiplas fontes, resolver exercícios variados e perseverar.

A disciplina e a rotina funcionam como um “sistema isolado” que reduz a necessidade de forças externas constantes. O trabalho passa a fluir, não mais porque uma prova está próxima ou porque um prazo está se esgotando, mas porque o próprio ato de estudar sustenta o progresso.

Portanto, para não procrastinar e parar de se autossabotar: simplesmente comece o que precisa fazer. Ganhe um pouco de momentum. Não precisa se cobrar em concluir todas as tarefas de uma vez; divida o que precisa fazer em tarefas mais fáceis (cuja barreira inicial percebida é menor) e deixe o processo te conduzir até a conclusão.

Ganhar momentum: começar é o que sustenta o progresso.

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Victor Lins

Publicado nas Leituras do Acervo Lins, a casa editorial que faz livros para durar.

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