Explicadores

Tecnologia Veio Para Facilitar. Mas a Vida Deveria Mesmo Ser Fácil?

Os grandes mestres (de todas as áreas do conhecimento) desenvolveram os conhecimentos que constroem tudo que vemos hoje, sem nenhuma tecnologia. Por que nós precisaríamos dela?

Victor Lins

Victor Lins

Bacharel em Física pela USP · Professor há 10 anos

17 de janeiro de 2026 · 4 min de leitura

Aprenda a valorizar o processo. A vida real.Ilustração · Acervo Lins

Filtre com muita cautela o tipo de tecnologia que permite entrar na sua rotina. Algumas podem te deixar burro.

Me parece que algumas tecnologias encurtam o caminho de atividades que não deveriam ser encurtadas. Por exemplo, se para ganhar tempo você pede ao ChatGPT para escrever pra você a legenda de um post, a descrição de um vídeo ou mesmo o capítulo de um livro, comete o equívoco de estar andando com uma super muleta em vez de tornar suas pernas mais fortes e melhorar seu condicionamento físico. Super muleta porque de fato ela é rápida, mas não deixa de ser uma muleta — você não aprimorou suas habilidades na corrida, apenas chegou do ponto A ao ponto B mais rápido.

Registro reflexivo sobre tecnologia e rotina.

Penso que, a partir de certo ponto, a busca pela rapidez perde o sentido quando o resultado da entrega em nada influi você se tornar alguém melhor ou mais inteligente. De fato, você não ganhou tempo nenhum, apenas perdeu — porque gastou tempo em algo que não levou a nada, exceto possivelmente cumprir com um prazo qualquer. Que pobre essa vida, não? Qual o sentido de viver para… cumprir prazos?

Algumas tecnologias de fato vieram para melhorar a qualidade de vida das pessoas, dar um pouco mais de dignidade, melhorar a segurança e a saúde. Posso citar a máquina de ressonância magnética, as câmeras de vigilância, os automóveis e os aviões para transporte, o GPS para localização… e muitos outros, que intrinsecamente mais trazem bem do que mal.

Contudo, para que tantas tecnologias para entretenimento? Para te distrair? Para tirar a sua mente da vida real, das coisas que importam? Para que você sinta que está sempre sem tempo, “na correria”, e não possa usar sua cabeça para fazer nada além de trabalhar para o seu empregador e passar o final de semana vendo memes no sofá?

Para que tantas redes sociais, onde se perde tanto tempo contemplando e se comparando com a vida dos outros? Para que tantos apps de streaming, com uma infinidade de filmes e séries (tantos que você passa mais tempo escolhendo do que assistindo)?

Registro reflexivo sobre telas e distração.

Até com os apps de mensagens instantâneas, como o WhatsApp ou o Telegram, eu tenho as minhas ressalvas. Não são de todo o mal, é claro, pois em algumas ocasiões é muito desejável se comunicar de forma instantânea. Contudo, banalizou-se totalmente o ato de conversar com alguém; há muitos anos as pessoas aguardavam ansiosamente pelas cartas das outras, abriam com entusiasmo, se sentiam especiais pelo fato de a outra pessoa ter dedicado tempo a fazê-la e usavam a imaginação para criar a imagem da outra. Atualmente, você abre o WhatsApp de 100 a 200 vezes por dia, puxa uns assuntos aleatórios, muitas vezes responde apenas com uma figurinha, dá uma olhadinha no status (sem nem prestar atenção ao que está vendo, apenas pelo hábito de ver)… não há profundidade nenhuma.

Nesse momento, talvez você esteja achando que eu sou anti-tecnologia, mas não me entenda mal: eu uso celular e notebook desde os meus quatro anos de idade, hoje tenho um iPhone e um Mac no meu setup e passo mais da metade do meu dia ligado.

Não sou hipócrita: eu uso as mesmas tecnologias que você, mas escrevo esse texto também em tom reflexivo e de autocrítica, convidando a utilizá-las com maior responsabilidade.

Aprenda a valorizar o processo. A vida real. A filtrar o tipo de tecnologia que deixa ou não entrar na sua vida — e em qual intensidade. O tipo de coisa que merece demorar mais para ser executada, que compensa a perda de produtividade, em prol de melhorar como ser humano e se tornar mais inteligente.
Registro reflexivo sobre valorizar o processo.

Como disse no início: os grandes mestres (de todas as áreas do conhecimento) desenvolveram os conhecimentos que constroem tudo que vemos hoje, sem nenhuma tecnologia. Por que nós precisaríamos dela?

Se policiar e tomar iniciativas para encontrar o meio-termo parece ser a solução. Vamos juntos?

Victor Lins

Publicado nas Leituras do Acervo Lins, a casa editorial que faz livros para durar.

Próxima leitura · Física

Por que não conseguimos estudar?

A Síndrome da Inércia: o verdadeiro sabotador do seu rendimento acadêmico.

Ler a seguir